Sábado passado, fui ao baile que é realizado mensalmente pela academia. Desta vez, fiz de tudo para não faltar, até porque o foco ia ser forró e a animação estaria a cargo do grande Zé Bicudo, um dos mais talentosos sanfoneiros da atualidade, cuja versatilidade foi tão bem retratada pelo inspirado Xico Bizerra, na sua magistral composição Fole Bicudo, que pode ser ouvida abaixo, numa antológica gravação de Petrúcio Amorim e cuja letra diz:
"Se pedir xote ele toca xote
se for baião ele toca baião
arrasta-pé, coco e xaxado
eita, cabra danado, toca fogo no salão
toca valsa, toca choro, toca samba
esse cabra é o bamba e toca de tudo
e se quiser ouvir aquele forró bom
é só dizer: - puxa o fole, zé bicudo
caruaru te deu ao mundo
e o mundo todo tu vais alegrar
tu fica aí malinando os dedos
e os pés da gente ficam doidos pra dançar
e toca rindo, toca brincando
nesse balé bonito do sertão
puxa o fole, zé bicudo
que eu ‘tô doidim’ pra alegrar meu coração"
se for baião ele toca baião
arrasta-pé, coco e xaxado
eita, cabra danado, toca fogo no salão
toca valsa, toca choro, toca samba
esse cabra é o bamba e toca de tudo
e se quiser ouvir aquele forró bom
é só dizer: - puxa o fole, zé bicudo
caruaru te deu ao mundo
e o mundo todo tu vais alegrar
tu fica aí malinando os dedos
e os pés da gente ficam doidos pra dançar
e toca rindo, toca brincando
nesse balé bonito do sertão
puxa o fole, zé bicudo
que eu ‘tô doidim’ pra alegrar meu coração"
Além do sanfoneiro de primeira, o forró ainda teve um casal convidado que deu um show à parte, dançarinos profissionais, detentores de vários prêmios no Brasil inteiro e que estão participando do concurso "Se ela dança, eu danço", promovido pela emissora SBT. Misturando forró, samba, choro e gafieira, fizeram uma virtuosa apresentação, numa performance única que encantou a todos.
Eu também tive meu momento de glória. Tendo passado a maior parte do tempo usando meu vasto repertório de apenas três passos e entrar em cena exclusivamente no xote, teve um momento, já no finalzinho da festa, que o "caboco dançador" baixou em mim e eu fiz umas estripolias que causou espanto no povo presente. Mesmo concentrado na minha performance e quase em estado de transe, não foi possível ficar alheio às expressões de surpresa, aos aplausos e assobios. Concluída a performance, vieram os apertos de mãos, tapas nas costas e declarações inflamadas. Estando estabelecido numa mesa próximo à saída, e para lá voltando para recuperar o fôlego após a inesperada performance, ainda pude receber mais alguns cumprimentos dos que iam embora e faziam questão de parabenizar-me pelo "show", como alguns classificaram a minha curta e modesta intervenção.
Elogios vieram até de Zé Bicudo, o maior responsável por aquele meu amostramento. Afinal, até aquela hora eu ia levando a noite na maciota, com meu xotear simplório, sem firulas. Mas, ele tinha nada de inventar de terminar a apresentação tocando frevo! Ao ouvir os primeiros acordes e sentir a marcação binária da zabumba, girei o botão da pernambucanidade no grau máximo e, caolho em terra de cego, passista no meio de forrozeiros, deixei de lado o acanhamento e desembestei na dobradiça, tramela, ferrolho, trocadilho, bico-de-papagaio, saci, parafuso, tesoura, gaveta, saci e o escambau a quatro. Só não dei mais pinote porque o chão estava liso e temi escorregar, contentando-me apenas em fazer um grilo, aqui e acolá, e a certa altura, e só desejando parar quando senti que estava prestes a ficar com um palmo de língua de fora. Mas os acordes finais vieram antes que isso acontecesse.