terça-feira, 31 de maio de 2011

No limite da paciência...

Na aula desta segunda-feira coube-me dançar com uma dama ansiosa e impaciente. Não tiro a sua razão, pois a sequência de movimentos que estava sendo trabalhada já era bastante familiar aos mais antigos, porém estava sendo um bicho-de-sete-cabeças para os novatos (e um pouco também para mim). Não foi à toa, que, certa altura, quando recebemos o comando de dançar sem o professor como guia, ela não se furtou de perguntar:
- É para dançar livre ou ficar nesse lenga-lenga?
Era para ficar no lenga-lenga!
Em estado de alerta, procurei executar o mínimo necessário aqueles passos tão exaustivamente já repetidos, torcendo para que minha memória coreográfica não me traisse e eu pudesse "enfeitar" com um ou outro passo diferente, ensinado anteriormente. Suspeito que eu não tenha sido tão competente nesta tarefa quanto deveria, porque, por duas vezes, o professor me viu sozinho no salão e ao perguntar por minha dama, obteve como resposta:
- Professor, ela teve uma sede repentina e foi beber água!
Mas o abandono temporário foi plenamente tolerado, uma vez que, conhecendo bem o temperamento de minha dama, sabia que tal ato era apenas expressão de sua ansiedade em experimentar novidades, até porque ela permaneceu sempe paciente comigo, ajudando-me a lembrar e concluir os movimentos.
Para sua felicidade, houve um rodízio entre os pares e ela teve a oportunidade de dançar com um outro cavalheiro, mais desenrolado e serelepe que eu.
Do meu lado, xoteei com mais duas outras damas e sai de lá consciente de que, após quase seis meses, não estou tão longe assim de executar com certa desenvoltura o tradicional dois pra lá, dois pra cá.
Aguardem-me!

Conversa de latada: Recife... e haja forró!

Anunciada a programação dos festejos juninos da Prefeitura do Recife. Agora é se agendar e se preparar para gastar o solado da chinela. Veja aqui

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pródiga lembrança

Ficou todo animado quando o professor colocou-me para dançar com aquela gaúcha que ali estava para sua primeira aula de forró, mas, diferentemente da aula anterior, confirmei o dito "alegria de pobre dura pouco". Afinal, primeira aula necessariamente não significa que não se tenha conhecimento prévio nem talvez uma predisposição para a atividade.
Aos primeiros acordes do xote vi que aquela ali essa uma forrozeira de mão cheia o que já me deixou cabreiro, estado que se agravou mais ainda quando ela disse que nós, nordestinos, já tínhamos o forró no DNA, como se todo carioca fosse bamba no samba e todo argentino o papa no tango. Depois dessa, minhas pernas deram um nó e o tico e teco da dança fizeram um buruçu no juízo, que nem acertava o que estava sendo ensinado e nem lembrava o que eu pensava ter aprendido antes. O riso leso disfarçava (ou denunciava) o constragimento, quando fui salvo pela troca de pares. Neste momento, a novata correu o risco de continuar comigo, mas eu recomendei ao professor que tivesse pena da coitada e a colocasse com um cavalheiro à altura.
Com a nova dama, o negócio pegou. O começo foi uma verdadeira briga de foice, mas aos poucos passou para uma luta de canivetes, porém, no fim, parece que a gente conseguiu fazer as pazes, e, inexplicavelmente, pela primeira vez eu consegui encadear vários passos diferentes e executá-los de maneira razoável. Tomara que isto tenha sido o início de uma nova fase e não apenas um fenônemo ocasional.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Mãe e Filha

Este meu retorno às aulas coincidiu com a chegada de novos alunos e alunas. Duas são mãe e filha. Deve ser a segunda vez que comparecem. Ambas verdinhas ainda no trato com o ritmo. Na formação dos pares, a mãe ficou com o cavalheiro ao meu lado. Coube-me ficar com a filha e, assim, pôr em prática o ditado que diz “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. O reinado de um caolho diante da novel dançarina e não dos demais.

O movimento que estava sendo trabalhado já era um velho conhecido meu, embora isso não signifique que o executo com destreza. Já tendo penado anteriormente com aquela sequência de “atrás - na frente - lacei / atrás – na frente – abracei” não me foi difícil de novo “pegar” a dinâmica do passo, diferentemente da minha dama, que, desconhecendo-o, demorou a assimilar. Desejosa de aprender, com atenção e serenidade se esmerava em acompanhar minha movimentação, que, confesso, não era tão harmoniosa e segura quanto deveria, mas pareceu ser o suficiente para aquela situação e a confiança que ela parecia em mim depositar, fez com que eu me sentisse “o rei da cocada preta”, tendo a sensação de estarmos evoluindo juntos na execução daquele passo tão simplório para quem tem um mínimo de desenvoltura para a dança, e tão desafiador para os desengonçados iguais a mim.   

Por isso fiquei todo ancho e com a impressão de ter sido útil na aprendizagem daquela candidata a forrozeira, e não um atraso de vida, como era de costume me achar. A empolgação foi tanta que dei-me ao luxo de oferecer-me para dançar com a mãe dela, que àquela altura demonstrava não estar muito satisfeita com a sua resposta ao exercício. Com esta segunda dama o tempo não foi suficiente para sentir se houve progresso ou se, ao menos, ela viu alguma serventia naquele meu oferecimento. Pouco importa. Sai da aula mais confiante e dançando melhor. Será?

Completando a noite e a satisfação, tive também a oportunidade de dançar com Carminha, a quem fico devendo a infinita paciência com meu esquecimento dos passos, as valiosas dicas de movimentação e postura, bem como as broncas por eu parar no meio da dança diante da simples impressão de ter errado, suspeita infundada, segundo ela. Como são generosas essas minhas amigas de academia!

Conversa de latada: Teobaldo no forró (1)

Conheci Theobaldo anos atrás, numa das muitas prévias carnavalescas que animam o Recife. Como eu, é adepto do bloco do eu sozinho, por isso não é raro encontrá-lo nas ruas ou ladeiras, meio expectador, meio folião. E não param por aí as nossas afinidades.

Dia desses encontrei-o no Bar do Batatinha, um dos mais concorridos estabelecimentos gastronômicos do Mercado da Boa Vista, aonde eu tinha ido tomar umas, e ele também. Acabamos bebendo juntos e no meio da conversa deu-me a mútua revelação do apreço pelo forró e da lamentável falta de jeito para a dança. Contei-lhe que, reconhecendo-me incapaz de corrigir esta inabilidade sozinho, decidi recorrer à ajuda de um instrutor, e transcorridos de alguns meses, já sentia uma tímida evolução. Falei do meu blog e recomendei que também procurasse uma academia. Não demorou muito e descobri que aceitara a minha sugestão, contando-me ele, dias depois, por telefone, que estava “comendo o pão que o diabo amassou” num curso de dança próximo à sua casa. Entretanto, seus relatos levam-me a crer que seu progresso será bem mais rápido que o meu, pois ele é meio atirado e menos rígido na auto-avalição, além de ter um espírito galhofeiro e brincalhão, o que lhe facilita não só a abordagem, mas também o enfrentamento dos tropeços de um aprendiz.

Avesso à internet, quando passa por uma situação que julga ser digna de registro, liga para mim, contando suas estripulias e sempre arrematando com a declaração: Isso dá blog! Foi o caso que ocorreu, recentemente, no Bar de Ceará, onde costuma ir sem outra expectativa que ouvir um genuíno forró pé de serra, com direito, de vez em quando, ao pé de bode de Truvinca, o escracho de Genival Lacerda e os aboios de Ronaldo. Nesse dia, findava a terceira dose de uísque e se preparava para solicitar a conta, quando dele se aproximou um conhecido com a esposa e duas amigas, perguntando se poderia arranchar-se à sua mesa, já que não havia outra disponível. Ele, prestativo e prestes a se recolher, não se opôs à proposta, aproveitou o ensejo para pedir outra dose e, com o fluir da conversa, mais uma. Pronto. Ficou no ponto, pela primeira vez naquela tarde ficou de pé, e ao sentir firmeza na base não titubeou em chamar uma das amigas do amigo para dançar.

Convite aceito, dirigiu-se ao salão, e lá, não se deixando entusiasmar pelo excesso de álcool, dançou apenas o que sabia com segurança, ou seja, o tradicional dois pra lá, dois pra cá do xote, sem qualquer enfeite ou firula. Achava que estava indo tudo bem até que, no meio da segunda música, sua dama, aproveitando a proximidade do grupo de amigos,  “jogou a toalha” e disse-lhe que estava cansada, já desapartando dele e puxando conversa com uma das mulheres à mesa, sem deixar claro se aquele súbito cansaço era devido às atividades dia ou à enfadonha monotonia da dança daquele eventual parceiro, deixando Theobaldo sem saber se preferia o tormento da dúvida ou o golpe da verdade.

domingo, 15 de maio de 2011

Conversa de latada: A camisa

Ao entrar no táxi não percebi a camisa estendida no encosto do banco do passageiro e, antes que eu nele me recostasse, o taxista pediu licença para pegá-la e a jogou no banco de trás. Explicou-me que era dançarino de forró e conciliava as corridas com o remelexo. Esperto que só, ele opta por fazer ponto nas imediações das principais casas de dança da cidade, chega cedo, enxarca de suor umas três camisas, de tanto dançar, e na hora que o povo começa a ir embora ele troca a dama pelo volante e vai garantir seu ganha pão. Daí a presença daquela peça de roupa que eu quase amassava.

Um tanto sem jeito, segredei-lhe que fazia aula de forró já há alguns meses, mas que ainda não tinha sentido muita evolução ao longo desse tempo. Ouviu atento meu relato e disse-me palavras encorajadoras, oferecendo-se, inclusive, para ser meu orientador prático, observar meus pontos fracos e orientar como melhorá-los. Disse ter jeito pra isso, pois com sua técnica conseguiu até fazer um japonês dançar forró.

Contou-me que há cinco anos vem se dedicando à dança, declarando ser esta atividade muito prazerosa e creditando a ela a causa da aparência tão jovial que esconde seus cinquenta anos de idade. Acrescentou que, graças a sua sugestão, várias pessoas trocaram o divã pelo salão e não se arrependeram. Falei para ele que isso acontecia mesmo, citando o exemplo de uma amiga muito próxima que trocou o psicólogo por uma alfaia de maracatu e vive feliz da vida. Mas, cortando-lhe o barato, confessei que comigo era bem capaz de dar-se o contrário: por conta dessa minha inaptidão para a dança, eu estou vendo a hora ter que procurar um psicólogo para intervir no processo. Ou para remover os bloqueios ou para evitar um trauma.

Ele não conteve o riso mas apressou-me em dizer que eu estava fazendo tempestade em copo d´água, que dançar era fácil demais e frases afins, das que Eistein devia dizer sobre Física e Mozart sobre Música. Disse ainda que bastava eu dominar uns cinco passos que não faria feio onde chegasse. Infelizmente cheguei ao meu destino e a conversa foi interrompida, ficando eu sem dizer a ele que no dia que eu estiver seguro só em fazer o passo básico já será um grande avanço e me sentirei apto a aprender  mais umas quatro dessas mungangas que se ensinam por aí como sendo forró pé de serra.

domingo, 8 de maio de 2011

Em dias de toró...

Mais um transtorno inesperado advindo das chuvas que caíram no Recife nesta segunda-feira. Faltou  mulher na aula de forró. Eram só três para cinco homens, sem contar o professor que sempre pega uma emprestada para fazer a demonstração.

Se evidentemente tal proporção não agradou aos marmanjos, possivelmente para elas também não foi lá essa maravilha, considerando o nível de desenvoltura dos cavalheiros presentes e o clima de desmotivação que se instalou, em que pese o esforço do professor em garantir o dinamismo da aula. Nunca antes nessa sala se viu tanto converseiro.

Mesmo assim a aula foi proveitosa. Dançar é sempre bom, mesmo precariamente, como é o meu caso. Além do mais, a cada encontro tem-se uma nova descoberta. No caso de ontem, uma dama observou que eu dançava enviesado, fato que, possivelmente, interferia na correta execução dos movimentos. Indicou-me a posição correta da forma mais objetiva possível: “Tem que ser umbigo com umbigo”.

Suspeito que passei a dançar assim “de bandinha” a partir da postura assumida para melhor visualizar a demonstração dos movimentos feita pelo instrutor. Se já estava sendo difícil concatenar braços, quadris e pernas, agora tenho mais um elemento anatômico para me preocupar. Vixe!