terça-feira, 24 de maio de 2011

Conversa de latada: Teobaldo no forró (1)

Conheci Theobaldo anos atrás, numa das muitas prévias carnavalescas que animam o Recife. Como eu, é adepto do bloco do eu sozinho, por isso não é raro encontrá-lo nas ruas ou ladeiras, meio expectador, meio folião. E não param por aí as nossas afinidades.

Dia desses encontrei-o no Bar do Batatinha, um dos mais concorridos estabelecimentos gastronômicos do Mercado da Boa Vista, aonde eu tinha ido tomar umas, e ele também. Acabamos bebendo juntos e no meio da conversa deu-me a mútua revelação do apreço pelo forró e da lamentável falta de jeito para a dança. Contei-lhe que, reconhecendo-me incapaz de corrigir esta inabilidade sozinho, decidi recorrer à ajuda de um instrutor, e transcorridos de alguns meses, já sentia uma tímida evolução. Falei do meu blog e recomendei que também procurasse uma academia. Não demorou muito e descobri que aceitara a minha sugestão, contando-me ele, dias depois, por telefone, que estava “comendo o pão que o diabo amassou” num curso de dança próximo à sua casa. Entretanto, seus relatos levam-me a crer que seu progresso será bem mais rápido que o meu, pois ele é meio atirado e menos rígido na auto-avalição, além de ter um espírito galhofeiro e brincalhão, o que lhe facilita não só a abordagem, mas também o enfrentamento dos tropeços de um aprendiz.

Avesso à internet, quando passa por uma situação que julga ser digna de registro, liga para mim, contando suas estripulias e sempre arrematando com a declaração: Isso dá blog! Foi o caso que ocorreu, recentemente, no Bar de Ceará, onde costuma ir sem outra expectativa que ouvir um genuíno forró pé de serra, com direito, de vez em quando, ao pé de bode de Truvinca, o escracho de Genival Lacerda e os aboios de Ronaldo. Nesse dia, findava a terceira dose de uísque e se preparava para solicitar a conta, quando dele se aproximou um conhecido com a esposa e duas amigas, perguntando se poderia arranchar-se à sua mesa, já que não havia outra disponível. Ele, prestativo e prestes a se recolher, não se opôs à proposta, aproveitou o ensejo para pedir outra dose e, com o fluir da conversa, mais uma. Pronto. Ficou no ponto, pela primeira vez naquela tarde ficou de pé, e ao sentir firmeza na base não titubeou em chamar uma das amigas do amigo para dançar.

Convite aceito, dirigiu-se ao salão, e lá, não se deixando entusiasmar pelo excesso de álcool, dançou apenas o que sabia com segurança, ou seja, o tradicional dois pra lá, dois pra cá do xote, sem qualquer enfeite ou firula. Achava que estava indo tudo bem até que, no meio da segunda música, sua dama, aproveitando a proximidade do grupo de amigos,  “jogou a toalha” e disse-lhe que estava cansada, já desapartando dele e puxando conversa com uma das mulheres à mesa, sem deixar claro se aquele súbito cansaço era devido às atividades dia ou à enfadonha monotonia da dança daquele eventual parceiro, deixando Theobaldo sem saber se preferia o tormento da dúvida ou o golpe da verdade.

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