sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Palavras de mestre: para as damas...

NUNCA, DE VEZ EM QUANDO e SEMPRE. Essa é a regra:
- Nunca (despencada);
- De vez em quando (Exibida);
- Sempre (Graciosa).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Décima-sexta aula

Será que o professor só vai mudar de ritmo quando eu tiver aprendido o xote? Se for, estamos todos lascado.  Na aula anterior ele anunciou que iria retomar o baião, mas ficou só na promessa. Na de hoje, pensei que ele iria cumprir o prometido, mas tome xote de novo. Xote é bom, mas só xote num tem cristão que aguente. Melhor desenfastiar um pouco.

Acho que realizei um grande feito hoje: consegui passar uns quinze segundos dançando e conversando com a dama sem perder o ritmo. Sinto-me como um peão que se segurou por oito segundos em cima de um touro brabo e sai se sentindo o rei da cocada preta. Falta agora é aprender passar de um movimento para outro de forma harmoniosa e espontanea, sem parar de dançar de uma hora pra outra e deixar a dama com cara de pastel. (Abrirei aqui uma exceção à regra que estabeleci para este blog, que era de não citar nomes de algum colega de turma, sem a prévia autorização, mas tenho que louvar a maneira carinhosa e delicada com que Ana Luíza tentou me ajudar na superação dessa minha deficiência, tão logo percebeu o meu aparreio. Valeu, garotinha!). Espero não estar sendo injusto com as demais que, cada uma do seu jeito, se dispuseram a me fazer entrar no eixo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Capaz d´eu ir...

28/10 (quinta)
21h - Sala de Reboco - Atração: Tributo a Accioly Netto (Cristina Amaral, Roberto Cruz, Ilana Ventura, Andreza Formiga, Beto Hortis, Dudu do Acordeon e André Macambira)
29/10 (sexta):
21h - Casa de Mainha - Atração: Trio Mói de Aruá e Couro de Zabumba
21h - Azulzinho - Atração:
21h - Bagacinho - Atração:
22h - Cafundó - Atração: Forró Falado e Chinelo Velho
22h - Sala de Reboco - Atração: Chico Balla
30/10 (sábado):
12h - Pátio de São Pedro - Atração: Dudu do Acordeon e outros convidados
14h - Arriégua - Atração: Homenagem à cidade de Vicência (Mahathma e convidados)
22h - Sala de Reboco - Atração: João Lacerda
22h - Cafundó - Atração: Irah Caldeira e Chinelo Velho
31/10 (domingo):
16h - Casa de Mainha - Atração: Júnior Torres e Tuca Versátil
16h - O Caboclinho - Atração:
16h - Casa de Zé Nabo - Atração: Novinho da Paraíba
16h - Forró de Arlindo - Atração:

Décima-quinta aula

Após rápido alongamento, o comando: peguem uma dama e dancem esta música.
Aluno obediente que sou, fui logo agarrando a mais próxima e mandei ver. Quer dizer, tentei mandar, porque a minha parceira era novata e eu estava parecendo tão ou mais iniciante que ela. Não foi à toa que, com apenas dez segundos de "jogo", o professor achou por bem desfazer o par e me juntou com outra dama.
Até que melhorou um pouquinho, mas, ou o piso estava muito liso ou o solado do meu sapato estava muito careca. Só sei que eu escorreguei o tempo todo, e a cada escorregada, um desequilíbrio, e, consequentemente, uma saída do ritmo. Inicialmente, a cada travada minha, a parceira perguntava "o que foi, que aconteceu?" Mais adiante, indagou se eu estava tentado fazer alguma coisa diferente e desistia no meio do caminho. Por último, a bichinha, sem conseguir entender o que me desestabilizava, perguntou se era ela que estava causando aqueles meus tropeços. Deu uma pena! Esforcei-me para descartar qualquer responsabilidade dela nos meus movimentos desencontrados, e tentei explicar que eu não entendia também porque tantos desacertos, mas estava suspeitando que algum movimento em falso, executado involuntariamente, estava atrapalhando meu equilíbrio. Parece que ela aceitou meus argumentos. Tomara!
Entre trancos e barrancos a aula seguiu e, a certa altura, minha performance foi tão surpreendente que fez o professor se perder na contagem e errar a ordem dos movimentos que estavam sendo trabalhados. Ele mesmo declarou isso em alto e bom som, ao microfone. Só não deixou muito claro se eu estava sendo surpreendentemente bom ou ruim.
Teve uma hora que todo cavalheiro foi orientado para retonar à dama que lhe fez par no começo da aula, menos eu, que fui proibido de me juntar àquela dos dez segundos, ficando decretado que a segunda parceira com quem eu dancei teria o status de minha primeira dama.
Ao final, o professor foi bem sucedido na sua meta de trabalhar a harmonia, não de cada casal isoladamente, mas da turma inteira. E a técnica parece que veio de encomenda pra mim, pois para chegar ao nível de excelência por ele desejado, tivemos que repetir a mesma sequência infinitas vezes. Tinha gente que já devia estar agoniado, mas eu estava era achando bom. Quem não deve ter gostado muito foi minha dama, que tem as mãos delicadas e, pela massagem que a vi fazer nos dedos, deixou-me com a impressão que eu não os segurei com o devido cuidado, vendendo tê-los apertado com firmeza além da conta. Ela disse que não foi isso, mas que suas unhas compridas haviam arranhado os seus dedinhos. Não me convenceu muito, mas preferi não polemizar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Décima-quarta aula

Hoje eu ri que só. Começando com uma das pareias designada para dançar comigo a coreografia da noite, mas que, por justa razão, não teve a necessária confiança em mim e desabou naquele riso descontrolado, típico de nervosismo e constrangimento. Eu até que tentei que ela botasse fé, porém, confirmando as suspeitas, nem com um "control+alt+del" eu consegui destravar e lembrar o começo da coreografia. Quando, finalmente, isso se deu, ela se desandou em um novo riso e contagiou boa parte do povo do salão. Aí quem deu aquela risada amarela foi eu. Mas depois da gréia geral, eu heroicamente consegui ir até o fim da sequência proposta. Certo que foi em câmara lenta, passo a passo, dentro do meu tempo e fora da música, martelando compassadamente, quase que quadro a quadro, para não correr o risco de esquecer como se faz nos cinco minutos após.
Eu até que descoro as coisas com facilidade. Se bem que tenho a mesma facilidade de esquecer o que achava estar decorado.  Mas, em termos de dança, nem decorar direito eu consigo ainda. Assim, é todo um processo assimilar cada sequência de movimentos.
Agora que já estou íntimo da turma e com o mínimo de cara de pau e cinismo necessários para a harmoniosa conviência entre os diversos, saí da aula com dois temas interessantíssimos para reflexão, frutos de  momentos de diálogo e de cumplicidade estabelecida enquanto dançava com uma das parceiras da noite:
1º - Como eu não estava conseguindo a sintonia básica para dançar com ela, procurei preencher o tempo da música pedindo-lhe que me ensinasse dois movimentos que eu verdadeiramente não estava sabendo executar. Sempre solícita, ela com calma e jeito me ensinou direitinho. Achei por bem agradecer-lhe pela aula, mas ao fazê-lo, fui brindado com esta pérola da sinceridade: - Está bom de eu cobrar, no mínimo, R$ 50,00 por essa aula, porque só quem está ganhando aqui para ensinar é o professor.
2º - Considerando a minha lentidão em absorver uma sequência de movimentos, por mais rudimentar que seja, para poder fazê-la de forma espontânea, tenho que repeti-la um trilhão de vez, e ir trabalhando os detalhes a cada uma das vezes que fizer. Esta técnica não é completamente eficiente, mas aumenta a probabilidade de dar certo. Assim, diferentemente dos outros casais, que procuravam dançar com espontaneidade, inserindo de forma natural as sequências até então ensinadas, eu me concentrei nos movimentos récem trabalhados e tentei exercitá-los exaustivamente com a minha dama. Uma, duas, três. Quando estava reproduzindo pela quarta vez a mesma sequência, minha dama docilmente comentou: - Tu vai ficar fazendo esse passo o tempo todo, é?. Eu respondi: - É porque, para fixar, eu preciso praticar bastante.  Neste momento escutei um conselho sábio e deveras estimulante: - Oxe, tu tem que praticar assim é em casa.
Legal esta sinceridade. Faz-me ver que devo ter abusado da boa vontade da minha dama, que por sinal, é a colega da turma com quem tenho mais intimidade e que goza da minha estima e do povo da minha família que a conheceu.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Capaz d´eu ir...

22/10 - 21h - Cafundó (Caxangá) - Atração: Banda Chinelo Velho
22/10 - 21h - Casa de Mainha (Arruda) - Atração: Paulo César do Acordeon, Flor de Lótus e convidados
22/10 - 21h - Azulzinho (Cid. Universitária): Atração: Zé Bicudo e Paula
22/10 - 22h - Sala de Reboco (Cordeiro) - Atração: Maciel Melo

23/10 - 14h - Arriégua (Cid. Universitária ) - Atração: Banda Kartuxo e participação especial de Cezinha
23/10 - 16h - Batutas de São José (Afogados) - Atração: Ilana Ventura (bingo do bloco "O Bonde")
23/10 - 21h - Cafundó (Caxangá) - Atração: Chinelo Velho e Nádia Maia
23/10 - 21h - Casa da Rabeca (Cidade Tabajara-Olinda): Atração: Petrúcio Amorim, Paulinho Leite e Sintonia Pé de Serra
23/10 - 22h - Sala de Reboco (Cordeiro) - Dudu do Acordeon

24/10 - 16h - Casa de Zé Nabo (Prado) - Atração: Jorge Silva, Charles Matoso, Raminho do Acordeon e Quarteto do Zé
24/10 - 16h - Caboclinhos (Afogados): Atração: Rogério Rangel (participação de Maciel Melo, Petrúcio Amorim e Benil)
24/10 - 16h - Casa de Mainha (Arruda) - Atração: a confirmar
24/10 - 16h - Forró de Arlindo (Dois Unidos) - Atração: Arlindo dos 8 baixos e convidados
24/10 - 19h - Bar Mamulengo (Praça do Arsenal-Recife Antigo) - Atração: Vôte, que é isso!

Décima-terceira aula

Ainda bem que era aula de forró, porque se fosse de bolero e com o sono que eu estava ontem,  eu acho que teria arriado a cabeça no ombro da dama e, assim, apoiadinho, dormiria até roncar. Além dessa inoportuna sonolência, ainda entrei na dança sem o prévio alongamento, que me ajuda a ficar mais solto e a descolar o relé, como bem diz meu amigo Eliseu, o Sultão da Boa Vista. Não deu outra: Fiquei  leso e travado quase a aula toda. Ainda bem que contei logo à dama do meu estado de letargia e de demência além do normal. Como são maravilhosas e compreensivas essas mulheres! Quando eu atropelava o ritmo ao fazer um movimento desconexo, ela, dócil e pacientemente, tranquilizava-me: - Calma, deixe você acordar direito! Diante de tanta generosidade, o jeito era respirar fundo e tentar um novo recomeço.
Nesta aula, por conta deste meu estado físico e mental, também houve uma pane no meu sistema interno de comunicação. Cérebro não comandava direito as pernas, que por sua vez não buscavam se entender com os braços e estes ignoravam que faziam parte de um mesmo corpo. Pior foi na hora do peito com peito, que meu tórax era insistentemente sabotado pelo meu bucho e, ao invés de dar as peitadas que faziam parte da coreografia, eu só conseguia dar umbigada. Por incrível que pareça, até a bunda quis aprontar nesse momento, recuando sem a menor precisão, o que mais atrapalhava que ajudava.
Aproveitando que o caos estava generalizado, deixei a música em segundo plano e procurei a cumplicidade das damas para que eu absorvesse a fisiologia dos movimentos que estavam sendo trabalhados, para, em outro momento, tentar executá-los dentro do ritmo esperado.
A julgar pela preleção do professor, o povo ontem estava muito sisudo, carrancudo ou apático. Sem borogodó. Parecíamos estar mais numa aula de física quântica que de forró. Tem dia que o mar não está mesmo para peixe! Nem as dinâmicas propostas pelo professor fizeram o povo soltar a franga e dançar de forma solta e contagiante. Eu não liguei muito para isso, porque no meu caso, quando, numa festa, essas técnicas de animação não funcionam, é só eu apelar para os recursos do outro professor, o Teachers, que num instante eu me animo e danço até a marcha fúnebre como se fosse frevo.

domingo, 17 de outubro de 2010

Décima-segunda aula:

Cinco novos iniciantes nesta aula, quatro damas e um cavalheiro. Não consegui enxergar em suas fisionomias a mesma expressão de pânico que devo ter exibido na minha primeira vez. Percebo agora que não prestei muita atenção ao que eles faziam e acredito que os outros veteranos (já estou me sentindo um deles) também não, mas no meu primeiro dia, a impressão que eu tinha era que todos os olhos da sala estavam voltados para mim
Atualmente meu desafio, não é mais me preocupar com os olhos alheios, mas com os pés. Não os dos outros, mas  os meus, para os quais não consigo deixar de olhar enquanto estou dançando. Embora várias damas já tenham dado o toque, eu ainda não me convenci de que sou capaz de dançar melhor sem tê-los sob atenta vigilância. Continuo suspeitando que tais sugestões, na verdade, são mecanismo de autodefesa delas contra alguma inconveniência da situação que eu ainda não consegui identificar.

Sei que um dia hei de me libertar desse mau costume, aí, será a vez de  uma tarefa mais difícil ainda para um tímido como eu: FITAR OS OLHOS DA DAMA.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Palavras de mestre:

... Eu agradeço às trinta ou quarenta mulheres com quem eu dançava por noite. Cada uma delas teve enorme importância no meu aprendizado e ajudou-me a ser o que eu sou hoje na dança ...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fim do segredo (II)

Ainda repercute no seio da família a revelação das minhas aulas de forró. O povo boquiabre-se. Até agora a companheira foi quem menos se mostrou surpresa com a notícia. Para muitos, foi uma atitude impensável, inimaginável, inconcebível para minha pessoa. Não apenas a decisão tomada, mas, principalmente, o fato de ter começado às escondidas e de manter em sigilo por mais de um mês, mesmo editando um blog relatando as experiências de cada aula.

Depois do fato sabido, evidentes ficaram os rastros que, a um olhar mais atento, denunciavam que alguma coisa diferente estava acontecendo. Agora está explicado porque passei a encher o saco do povo com a repentina exclusividade do forró nas músicas que colocava no microsistem, no computador e no som do carro. Dei bobeira até com o som portátil que uso para treinar frevo na sala de ginástica do prédio onde moro, pois se antes era comum ficar nele cd das orquestras de Spok, de Forró ou do Maestro Nunes, de uma hora pra outra passei a deixar cd de Petrúcio Amorim, Josildo Sá e do meu amigo Maciel Melo, que eu colocava para ouvir na hora do alongamento final. Esclarecida ficou também a estranha necessidade de comprar calças de tactel para caminhar no calçadão da praia de Boa Viagem, sob a alegação de que era para aplacar o frio nas pernas provocado pela vento soprado pelo Atlântico.

Como se vê, em termos de trelas clandestinas, todo cuidado é pouco para não dar bandeira e nem dormir de touca.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Conversa de latada: É ciscando que se começa (*)

Menino nascido no interior, mas criado na capital por uma tia zelosa e mergulhado na igreja desde criança, ao chegar aos catorze anos, ele resolveu deixar a religião de lado e caiu no oco do mundo. Nunca mais voltou.
Ovelha desgarrada, na sua primeira saída noturna, foi atraído pelo burburinho de um bar do centro da cidade, sem saber que aquelas luzes piscantes poderiam ser um sinal de que estava  adentrando em um verdadeiro templo do pecado, que acabara de cruzar as portas de um cabaré. Para matar a curiosidade e um desejo reprimido, a primeira coisa que fez foi pedir uma cerveja, mas não passou do primeiro gole. Deu retorno. Ligeiro, apareceu uma "menina" perguntando se podia tomar um copinho. Ele disse:
- Leve, pode tomar tudo.
E haja a aparecer meninas sorrindo pro lado dele, mostrando as lapas de coxas e a polpa da bunda, espremidas por shortinhos acochados, alguns mais parecendo calcinhas. Aquela abundante oferta de carne, feito balcão de açougueiro, as luzes coloridas e o comportamento lascivo daquela gente lhe fizeram suspeitar do ambiente, mas, àquela altura, pagou para ver até onde chegaria, fiando-se na velha filosofia popular que prega: já que está dentro, deixa.
E ele lá, agora só no guaraná, encostado atrás de uma coluna e curtindo um forrozinho vindo da radiola de ficha.  Lembrou do seu tempo de igreja, onde tocava bateria, começou a se envolver com o ritmo,e, nem deu fé que estava mexendo os pés, marcando com eles a cadência. Teria ficado com tais movimentos o resto da noite, viajando na música, pois, dançar não sabia, já que também era umas das muitas coisas que, até então, lhe tinham sido proibidas, mas uma das meninas da casa percebeu sua dança minimalista e gritou toda gaiata:
- Olha o menino ciscando! 
Procurou onde se enfiar e não achou. Saiu de lá tiririca da vida, na semana seguinte matriculou-se em um curso de forró e jurou que nunca mais quenga alguma ia ter motivo para greiar com dele. 
Dito e feito. Hoje é o cão chupando manga na dança. A igreja perdeu um fervoroso fiel, mas o mundo ganhou um pé-de-valsa arretado.
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(*) - Livre adaptação do depoimento de vida do professor de danças Gledson Silva

domingo, 10 de outubro de 2010

Fim do segredo (I)

Local nada discreto para quem estava agindo em segredo. Justo na frente de movimentado restaurante e de uma parada de ônibus, onde passa uma das linhas de coletivo que leva ao meu bairro. Iludia-me deixando o carro alguns metros adiante e olhando atentamente ao derredor, à cata de algum conhecido que pudesse me flagrar adentrando aquela porta, que, duas vezes por semana, leva-me a  inesquecíveis momentos de prazer e de intensa ansiedade.Que me ativa o sangue e faz-me suar. Que me transforma a cada encontro.
E vivi assim esta minha aventura clandestina até esta semana. Cada vez que de lá saía, vinha com o coração na mão e a suspeita de que, a qualquer momento, seria pego em flagrante delito. Com o temor de uma inoportuna descoberta, vinha a carga de adrenalina provocada pelo desafio que era ver até quando  conseguiria fazer aquilo escondido. Como agir para me manter sempre com esses dias livres de outros compromissos? Que nova desculpa irei inventar da próxima vez? E se alguma amiga me ver e for contar para ela? E se eu chegar em casa cheirando a perfume diferente ou com mancha de batom na camisa? Eram interrogações que roubavam-me horas de planejamento e simulações.
Agora já não é mais preciso. Tudo tornou-se público. Antes que despertasse desconfiança, resolvi confessar.  Minha companheira já sabe que estou fazendo aulas de forró na DANÇAR. Além de ficar ciente desta minha estripolia, pode provar das minhas novas habilidades (e sofrer com elas também), e para completar o pacote, foi surpreendida com o convite para a festa Embalos de Sábado à Noite, quando foi apresentada  à academia, aos professores e a alguns e algumas colegas de curso.. E, confirmando minhas suspeitas, corre o risco de torna-se a mais nova aluna do espaço.
Passado o choque da surpresa, rendeu-se ao milagre da técnica, reconhecendo que poucas semanas foram suficientes para extrair de mim um progresso que ela tenta há mais de vinte anos, sem muito sucesso.
E olhe que isso é só o começo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Kit de primeiros socorros...

Aflitos, 06 de outubro de 2010.
Prezado Professor,

Na condição de aluno casado, mas que faz aula desacompanhado da digníssima, tendo eu sido vítima de acidentes  ocorridos durante algumas aulas, que, não fosse minha lábia, poderiam causar transtornos irreparáveis à harmonia conjugal, e a fim de evitar novas situações desesperadoras a mim e a outros cavalheiros que estejam na mesma condição que eu, ou pior, já que é do meu conhecimento que tem gente que faz aula de forma clandestina, sem o conhecimento da mulher, sugiro que  esta academia tenha sempre disponível o seguinte kit de primeiros socorros:
1- REMOVEDOR INSTANTÂNEO DE MARCA DE BATOM, principalmente daquelas que deixam desenhada  uma boquinha sexy na camisa do sujeito, e que, obedecendo à Lei de Murphy, normalmente ocorrem quando a camisa é branca;
2- NEUTRALIZADOR DE PERFUME SUPER ATIVO, desses que ficam impregnados na roupa do cabra e não tem suor que lhe substitua;
3- REPELENTES DE CABELOS FEMININOS, que, despregando-se do couro cabeludo pelo força centrípeta provocada pelos movimentos da cabeça da dama, se agarram feito carrapicho na roupa ou nos braços peludos do cavalheiro, e camuflam-se de tal forma, que só olhos femininos conseguem percebê-los, e que, inevitavelmente, são sempre de dimensões e coloração diferentes dos da companheira que os descobre.

Acreditando que esta solicitação não será de difícil atendimento, e, considerando os benefícios que poderão proporcionar, espero que este pedido seja atendido o mais rápido possível.

Atenciosamente

Forrozeiro aperriado.

Décima-primeira aula

Hoje me empareei com três damas com as quais não tinha formado par ainda. Foi legal a experiência, que não aconteceu por acaso, mas porque, no início da aula, procurei  posicionar-me numa área da sala que usualmente não fico. E ao comando do "pegue sua dama", não foi difícil me juntar a alguém diferente das vezes anteriores. Bom interagir com o novo. É desafio, mas também é prazer.

Hoje só a pau é que o povo conseguiu entrar no ritmo. É que o professor teve que usar umas baquetas para o povo se acertar. E tome xote!

Normalmente eu tenho dificuldade em aprender novos movimentos, mas as vezes eu me supero e, além de travar para o novo, ainda consigo a façanha de me enrolar naquilo que eu acho que já sei. Hoje foi assim. Talvez a preocupação com a hora, por necessitar sair mais cedo da aula, tenha comprometido a minha concentração. Só sei que foi um desmantelo só!
O que me alivia é que tinha muita gente se enrolando também, embora eu não seja dos que se alegram com o infortúnio alheio.

Conversa de latada: Filosofia matuta

Ainda no seu tempo de rapaz, no interior, ele foi a um forró de latada, na zona rural de sua cidade, localizada no sertão paraibano. Ao vê-lo voltar pra casa mais cedo que de costume, seu pai, o barbeiro Josafá, perguntou-lhe:
- E o forró, filho, como foi?
- Ah, pai , respondeu ele, prestou não. Só tinha mulher feia.
O velho, com a força da sabedoria sertaneja, retrucou:
- Mas, meu filho, se só tinha mulher feia ainda foi muito melhor do que se lá só tivesse homem bonito!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Décima aula

O rojão hoje foi quente. O professor não alisou. Já começou a aula com um baião coletivo, mostrando as diversas possibilidades de movimentos das pernas. Para os lados, pra frente, pra trás, chutando, girando, mancando e o escambau a quatro. Se ele tivesse executado na velocidade 3 eu teria fixado ao menos umas duas variações, mas, parece que a velocidade 6 foi suficiente para a maioria pegar o jeito. Então, paciência. Devagar se vai ao longe, já dizia meu avô.

Passada a hora do aquecimento, voltou a ser trabalhado o passo treinado na aula anterior. Esse, como foi exaustivamente repassado na velocidade 2, eu consegui absorvê-lo em torno de setenta por cento.  Além do mais, fui premiado com uma jovem dama, graciosa, paciente e atenta aos meus deslizes, que, com uma meiguice singular, dava-me a dica de como corrigi-los.  Depois de inúmeras tentativas, conseguimos concluir a sequência de movimentos conforme nos foi ensinada. O que deu a murrinha e não saiu de jeito nenhum foi a transição de um passo para outro. O jeito era parar um, se posicionar, respirar fundo, se concentrar e executar o seguinte.

Por um momento  a professora pensou que eu trabalhava na CEASA ou era calunga de caminhão. Porque ela disse que eu estava jogando a dama para o lado como se fosse um saco de batatas. Depois desta observação, tentei ser menos brucutu. Tomara que a minha graciosa dama não tenha ficado com alguma luxação ou hematoma.

A aula hoje foi bem vegetariana. Além do saco de batatas, teve também gente dançando feito uma árvore, só da cintura pra cima. Não fosse o olhar atento do professor, tinha enganado direitinho.

Por fim, percebi o quanto é importante o cavalheiro passar segurança à sua dama. Por isso, amanhã cedo, a primeira coisa que eu vou fazer, é comprar uma maromba e uns halteres, trabalhar bíceps e tríceps, ganhar um muque para assim, não ver o olhar de pânico de uma dama com IMC um pouquinho acima do desejado, temendo que eu não seja capaz de sustentar por alguns segundos o peso do seu corpo sobre o meu, como aconteceu na aula de hoje. Ainda bem que minha demência deu uma trégua , deixando-me traduzir aquele riso como sinal de nervosismo, entender a causa do desconforto e não perder o embalo da dança fazendo apenas o caô de que a estava puxando para cima de mim. Quem manda ser um buchudo franzino e só fazer levantamento de copo!

Conversa de latada: Forró de pé quebrado

Falou meu amigo Wilson, passista dos bons: - Poeta, dançar forró é como fazer cordel. Não tem diferença.
E mais não disse porque estávamos no Samba no Morro e, nesse momento, subiu ao palco Jorge Ribas, provocando o maior alvoroço e aumentando o burburinho à nossa volta, impossibilitando, assim, uma conversa mais amena e sem concorrência.
Mas a afirmação dele ficou percutindo no meu juízo, feito o toque do bacalhau embaixo da zabumba.E estou começando a concordar com ele. Se não, vejamos: assim como a dança se alicerça no ritmo da música, a poesia se ampara na sonoridade das palavras e na cadência dos versos. E a poesia de cordel, tão nordestina quanto o forró, não foge a essa regra. Pelo contrário, o cordel tem na métrica e na rima a sua razão de ser.A rima, tendo o momento e o lugar certo de ser colocada no verso pelo poeta, é como a dama no forró, que o cavalheiro tem que ter pleno domínio e tem que fazê-la ir aonde ele quer, sem parecer forçada, mas de forma natural e graciosa. E é a métrica, representada pelo tamanho dos versos e pelas sílabas neles presentes, que dá o ritmo aos versos, como o compasso dá à música, imprimindo a cadência rítmica à poesia. E, quem já está com o ouvido acostumado com os versos do cordel, de imediato, percebe se o poeta escorrega na métrica, porque, quando isso acontece, quebra-se o ritmo do poema..Neste caso, costuma-se dizer que o cordel tem (verso de) pé quebrado.
Levando em consideração as sempre sábias palavras do meu amigo Wilson, acho que ainda estou a meio caminho de saber o que fazer com a rima do forró (a dama) e nem ainda dominei a métrica da dança. Mesmo assim, vou dançando meu forró de pé quebrado, confiante que o tempo há de me conceder a graça de dançar um forró metrificado.

Conversa de latada: Arriégua, sô!

O fato dele não dançar não o impedia de ir aos forrós da cidade, para curtir o ambiente, a música e a farra com gente amiga. Nessa tarde, no Arriégua, não foi diferente. Um forró bom da gota, gente bonita, alegre e festeira. Lá estava ele à mesa, tomando rum com coca e conversando com Aninha, sua grande amiga, quando Polyanna, uma prima dela, mulher bonita e dotada de outros agradáveis atributos, chega, toda queixosa, e diz para os dois:
- Eu devo está muito derrubada mesmo. O forró já está acabando e até agora nenhum homem me chamou pra dançar. Como é que pode!
Mesmo consciente que um simples gesto seu haveria de ajudar na recuperação da autoestima daquela forrozeira insatisfeita, ele só foi capaz de cochichar ao ouvido de sua amiga:
- Eu estou com dó da tua prima, porque, se depender de mim, ela vai continuar sem dançar..

Capaz d´éu ir

08/10/2010 - 22h - Trio Juriti de novo na Casa de Mainha (Arruda-Recife)
08/10/2010 - 21h - Dudu do Acordeon no Bagacinho (Av. Marcos Freire - Olinda)
09/10/2010 - 22h - Trio Juriti na Sala de Reboco (Cordeiro-Recife)
10/10/2010 - 17h - Josildo Sá na Casa de Zé Nabo (Prado-Recife)