segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Conversa de latada: Forró de pé quebrado

Falou meu amigo Wilson, passista dos bons: - Poeta, dançar forró é como fazer cordel. Não tem diferença.
E mais não disse porque estávamos no Samba no Morro e, nesse momento, subiu ao palco Jorge Ribas, provocando o maior alvoroço e aumentando o burburinho à nossa volta, impossibilitando, assim, uma conversa mais amena e sem concorrência.
Mas a afirmação dele ficou percutindo no meu juízo, feito o toque do bacalhau embaixo da zabumba.E estou começando a concordar com ele. Se não, vejamos: assim como a dança se alicerça no ritmo da música, a poesia se ampara na sonoridade das palavras e na cadência dos versos. E a poesia de cordel, tão nordestina quanto o forró, não foge a essa regra. Pelo contrário, o cordel tem na métrica e na rima a sua razão de ser.A rima, tendo o momento e o lugar certo de ser colocada no verso pelo poeta, é como a dama no forró, que o cavalheiro tem que ter pleno domínio e tem que fazê-la ir aonde ele quer, sem parecer forçada, mas de forma natural e graciosa. E é a métrica, representada pelo tamanho dos versos e pelas sílabas neles presentes, que dá o ritmo aos versos, como o compasso dá à música, imprimindo a cadência rítmica à poesia. E, quem já está com o ouvido acostumado com os versos do cordel, de imediato, percebe se o poeta escorrega na métrica, porque, quando isso acontece, quebra-se o ritmo do poema..Neste caso, costuma-se dizer que o cordel tem (verso de) pé quebrado.
Levando em consideração as sempre sábias palavras do meu amigo Wilson, acho que ainda estou a meio caminho de saber o que fazer com a rima do forró (a dama) e nem ainda dominei a métrica da dança. Mesmo assim, vou dançando meu forró de pé quebrado, confiante que o tempo há de me conceder a graça de dançar um forró metrificado.

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