APAGARAM O CANDEEIRO E DERRAMARAM O GÁS
O que seria a vigésima segunda aula não aconteceu. Faltou energia elétrica no bairro inteiro e adjacências. Era um breu só, quebrado pelos faróis dos automóveis e pela iluminação dos raros prédios com geradores. O professor, que também é músico, até que fez um esforço para não frustrar as expectativas dos aprendizes da turma do primeiro horário, da dança de salão, marcando o ritmo com o bongô, abrindo as janelas e deixando a luz da lua alumiar a sala, o que se traduzia numa aconchegante penumbra, propiciando o mínimo de claridade, suficiente para enxergar a demonstração do professor, além de evitar possíveis esbarrões e, quem sabe, inibir alguma ousadia de um(a) assanhado(a) oportunista, algo pouco provável, mas não impossível de acontecer, pois, como diz o ditado, a ocasião faz o ladrão.
Nesse cenário, eu já comecei a imaginar como seria a aula de forró sem ouvir o resfolego da sanfona, dançar só com o tum-tum-tum-pac da percussão, mas sem o timbre familiar do zabumba. A priori, pensei que iria ser sem graça, mas mudei de idéia ao ver que até seria bom dançar um forrozinho à luz da lua, como se estivesse num autêntico forró de latada, sem energia, no máximo, um candeeiro a gás. Viajei tanto nessa idéia que, quando vi, já estava me sentindo o felizardo personagem do xote "Meu Cenário", de Petrúcio Amorim:
"Nos braços de uma morena
Quase morro um belo dia
Ainda me lembro meu cenário de amor
Um lampião aceso
O guarda-roupa escancarado
Vestidinho amassado debaixo de um batom
Um copo de cerveja uma viola na parede
E uma rede convidando a balançar
Num cantinho da cama um rádio a meio volume
E um cheiro de amor e de perfume pelo ar
Numa esteira
O meu sapato pisando o sapato dela
Em cima da cadeira aquela minha bela sela
Ao lado do meu velho alforje de caçador
Que tentação
Minha morena me beijando feito abelha
A lua malandrinha pela brechinha da telha
Fotografando meu cenário de amor".
Suspeito que a experiência de dançar bolero apenas ao som de um bongô não deve ter sido muito satisfatória, porque, perdurando a falta de energia, o professor não quis fazer o mesmo com o forró e acabou dispensando a turma.
A princípio, fiquei frustrado por mais um dia sem praticar o ralabucho, mas, compreendo as impossibilidades do imprevisto, acatei a decisão e, aproveitando a oportunidade que o inesperado me ofereceu, sai de lá, correndo, a procura do lugar mais próximo onde houvesse energia e um barzinho suprido de cerveja gelada, e, com ela, deixar fluir as idéias e ficar "viajando" diante da tentação de uma morena beijando feito abelha, e a lua malandrinha, pela brechinha da telha, fotografando o cenário de amor...
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