Germana, companheira de Stanislaw, há vinte anos, já não aguentava mais as esquivas do marido quando ela lhe cobrava levá-la a uma casa de forró para mostrar as novas habilidades adquiridas por ele nas aulas semanais de forró.
Tendo engravidado no último ano da faculdade, quase não concluía seu curso de Assistente Social, profissão que nunca exerceu, pois, casando às pressas e sem projeto de vida, conformou-se com as lides de dona de casa, cuidando mais do marido e dos cinco filhos que de si, rejeitando a ideia de ser escrava de dietas, vaidades, cremes e grifes. Sua casa era um brinco; seus dotes na cozinha, elogiado pela família e amigos; seus prazeres, acompanhar as novelas da tv, curtir as músicas do seu ídolo maior, Zeca Pagodinho, rodízio de pizza no final do mês e, de vez em quando, comer um peixe "acocorado", no Restaurante do Brilosinho, em Boa Viagem.
De tanto ser aconselhada pelos médicos e amigas, acabou incluindo caminhadas diárias na agenda. Era o máximo de exercício que praticava, já que dispunha de uma auxiliar para as atividades domésticas mais laboriosas, como varrer e arrumar a casa, lavar e passar roupa. Quando mais jovem, gostava de dançar, porém graças à dureza e falta de habilidade de Stanislaw, foi aos poucos perdendo o gosto por este lazer. Assim, quando ele revelou a vontade de entrar numa escola de dança, ela ficou logo entusiasmada, mesmo com a revelação de que ele pretendia fazer aula sozinho, pois o jeito ansioso dela iria deixá-lo tenso e atrapalharia a aprendizagem.
Transcorridos seis meses, começou a cobrar-lhe irem à Sala de Reboco ou Casa de Zé Nabo, para mostrar e praticar com ela o que já havia aprendido. É verdade que, nesta nova fase, eles já tinham dançado em alguma festa de amigos, mas ele limitara-se apenas ao trivial do “dois pra lá, dois pra cá”.
Cansada de esperar pela iniciativa dele, puxou as rédeas para si. Por isso, às vésperas do dia do aniversário de casamento, ela disse-lhe que já havia escolhido o presente. O tradicional jantar a dois desta vez teria um toque especial: ia ser num lugar diferente, que ela já escolhera, a partir de sugestão de sua melhor e mais confiável amiga.
Na noite seguinte, uma quinta-feira, rotineiramente reservada ao jogo de sinuca com os amigos, Stanislaw chegou do trabalho um tanto ansioso, tomou banho e logo trocou de roupa, o que não levou mais que dois quartos de hora, ao passo que ela, já de cabelo antecipadamente tratado pela chapinha, quase não findava a batalha de escolher um vestido que lhe coubesse, sem muito lhe apertar, caprichar nos cosméticos e encontrar os acessórios mais adequados ao conjunto.
Estando prontos, foram à comemoração, para ser maior a surpresa, fez ela questão de saírem no seu carro, com ela ao volante. Com alguns minutos de rua, Stanislaw começou a sentir um frio na barriga, uma ânsia, como a antever que algo de indesejável estaria por acontecer. E a impressão passou à certeza quando Germana parou o carro bem próximo à Praça da Cerveja e disse: - Chegamos! Falta só encontrar onde estacionar.
Entre surpreso e desesperado, Stanislaw ainda tentou sugerir que fossem a outro local, alegando que àquela hora seria difícil encontrar mesa disponível ali e que poderiam ir a um lugar mais reservado, mais romântico, porém Germana mostrou-se resoluta e ele acabou entregando sua sorte ao destino. E, pelo que disse o flanelinha ao vê-lo descer do carro, seu martírio estava só começando:
- Veio de carona hoje,
patrão?
Stanislaw
fingiu não ter sido com ele e esboçou relativa tranquilidade supondo
que a mulher não também não ouvira, já que continuou
indiferente. Alguns passos adiante, à entrada do
restaurante, uma nova ameaça. O moço da recepção, todo
cordial, cumprimentou-lhe com insuspeita intimidade:
-Boa Noite, Stanislaw. Chegou cedo hoje, hein!
Desta vez, o tom foi mais alto e o olhar fuzilante de Germana denunciou que ela não gostara do que acabara de ouvir, embora nada tenha falado a respeito. Vencido o último degrau de acesso à área das mesas, passa serelepe um garçom magro e baixinho, que, sem interromper seu trajeto, fala para Stanislaw:
- Por incrível que pareça, a única mesa que esta desocupada, no momento, é aquela la do canto, onde o senhor sempre fica!
O
jeito foi seguir a indicação do garçom e acomodar-se à mesa por ele referida, e se, por um momento, achou que sua presença ali não seria mais notada, convenceu-se que dera com os burros n'água, quando o cantor do trio de forró, que
já começara a apresentação, entre um xote e outro, cumprimentou-o em alto e bom som:
- A próxima música vai para nosso amigo Stanislaw, frequentador de carteirinha nesta casa, e sapecou Meu Cenário, de Petrúcio Amorim.
Foi a gota d'água! Mal Germana começara soltando os cachorros, dizendo para ele "seu pilantra, quer dizer que é aqui que você vem, toda quinta-feira, "jogar sinuca" com os amigos, né?", aproxima-se Roberto Andrade, o mala do lugar, sempre sem noção e mais inconveniente ainda pelo excesso de bebida, chegou junto do casal, pôs a mão
esquerda no ombro do marido desesperado e com a outra, em concha, disse-lhe numa inútil tentativa de segredo, ouvida por quem estava perto:
- Stanislaw, que decadência , meu chapa! Secou a fonte daquelas gostosinhas que você sempre traz aqui pra dançar, foi? Hoje você vem só com uma e, ainda mais, uma coroa derrubada dessa!
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(A partir da crônica "O inferninho e Gervásio", de Stanislaw Ponte Preta, e de um causo ouvido nas minhas andanças pelos engenhos da Zona da Mata pernambucana)
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