Se eu já fico tenso só por estar ali, mesmo no meio de um povo já conhecido, dá pra imaginar como fiquei ao me ver com a responsabilidade de fazer esse remelexo com uma cabrocha bonita, risonha, serelepe e desenrolada (A prudência recomenda que eu economize os adjetivos) e que estava vendo pela primeira vez. Senti-me um tangedor de burro prestes a pilotar uma Ferrari.
Fiz o que pude. Fui logo recomendando que tivesse paciência comigo, declarando que eu era iniciante. Ela, compreensiva, disse que eu não me preocupasse e perguntou há quanto tempo eu fazia aula. Precisava ela fazer tal pergunta? Lá vou eu todo encabulado revelar que não eram só duas ou três semanas, mas que já passava um tiquinho de dois meses, umas dez semanas. Passado este constrangimento inicial, comecei e fiquei um tempão no básico do básico, que, conforme já me disseram uma vez, parece a dança do siri (do povo do Pânico). Ai, já amaciado o motor, ousei fazer a única sequência de giros que já está medianamente assimilada e sai com certa naturalidade. Senti na minha dama uma expressão de prazer por eu ter finalmente saído do arroz com feijão, porém, antes que ela criasse maiores expectativas, avisei-lhe que não esperasse de mim algo mais além daquilo. E voltei pra dança do siri, digo, para o básico, e para o mesmo giro, e de novo para o básico, e assim iria até acabar a música, mas ela, dama boa e gentil, tomou a iniciativa de mostrar-me outras possibilidades de movimentos, todas já ensinadas em aulas anteriores, mas nenhuma ainda internalizada e executada com segurança e leveza. Fiz de conta que eram desconhecidas, para não dar muita bandeira.
Aprendiz atento e concentrado, eu procurei repetir o que ela ensinava. Até que não fui tão mal, segundo ela, que só observou que eu faltava lembrar que existiam umas coisas chamadas música, ritmo e tempo, que deviam ser levadas em consideração na hora de dançar. Paciente, ela tentava me sintonizar gradualmente, com direito a me chamar de apressadinho algumas vezes. Não que eu estivesse avançando algum sinal com ela, o que até seria compreensível diante do seu jeito doce, mas sim, porque eu sempre tirava antes da hora. A mão.
Como se vê, o negócio ia bem, mas, de repente, ela precisou de uma pausa, pois uma câimbra inconveniente atacou-lhe no pé. Ainda bem que foi algo passageiro e passou justo na hora de praticar o remexido. Dois pra lá, dois pra cá, e pra trás, e pra frente, chama na xinxa, faz o remoído, quebra pra trás, puxa pro peito, e dois pra lá, dois pra cá, e assim sucessivamente. Eita pisada boa! Lavei a égua. Aí foi que nem lembrava que tinha uma música a ser seguida.
Mas diz um velho ditado que tudo que é bom dura pouco. E, cumprindo a dinâmica da aula, veio a tradicional recomposição dos pares. Bem que Gledson podia ter posto em prática o outro pensamento que diz que toda regra tem exceção, e ter deixado tudo como estava. Até porque a troca aconteceu justamente quando eu começava a sentir o ritmo e estava me encaminhando para fazer a coisa no tempo certo. A morena já estava assanhada de tanto jogar a cabeça pra trás. Ficou com sede e com fome também. Câimbra, sede, fome e um cavaleiro desajeitado. Dama nenhuma merece!
Superada a contrariedade de ver a cabrocha brejeira partir para outros braços, desdobrei-me o mais que pude para caprichar na performance com minha nova dama, Alana. Não foi preciso muito esforço, já que ela, segundo o próprio mestre, é a única que me coloca no eixo, além de Ana Luíza, declaração que me pegou de surpresa, pois eu não sabia que alguém já tinha alcançado tal proeza. Fiquei satisfeito com a revelação, pois tenho especial carinho pelas duas e, realmente, sinto-me à vontade com elas, embora também já tenha estabelecido cumplicidade com outras damas com quem tenho dançado, fruto da convivência e da sintonia.
Agora, o que eu quero mesmo saber é se na próxima aula vai ter remelexo de novo, pois se eu já faço questão de repetir infinitas vezes os passos para poder fixá-los, com esse aí é que eu vou querer praticar até a dama “pedir pra sair”.
----------------------------------------------------------------------------------------------------
Outra coisa: Só agora me veio uma dúvida atroz: Será que foi câimbra ou eu pisei no pé da garota? Tomara que na próxima aula ela apareça e esclareça esta questão.
5 comentários:
Chegar ate aqui foi uma questao de afinidades que tenho com esse moço, de total competência na sua mais performance como dançarino de um ritmo que mexe com a mente, e coraçao.... O relato de cada aula com muita irreverência e amor pelo o que faz. Um dia quero poder ter a honra de ser tua dama meu amigo!!! pense rsrsrs xero!!!
O forró mexe mesmo com minha mente, só falta mexer direitinho com meu corpo.
Grato pelas palavras de incentivo.
Xero
Eu falei que havia gente solidária, tá vendo.
kkkkk...
Bjins!
Não sou de mangar das pessoas e muito menos quando elas estão aperreadas, mas ô poeta, ri tanto até às lágrimas. Visitei seu blog, muito divertido mesmo.
Mas eu não sei pra que tanto tremilique, pra dançar um xotezinho, um forrozinho. Olhe que eu vi, eu viii... você fantasiado de caboclo de lança, se amostrando, dançando o frevo, naquele vai e não vai, (parafreseando o Aeu Lula),com muita maestria, de causar inveja a qualquer dançarino que se apresenta nos eventos pelo mundo afora.
Um dia e não está muito longe, você vai ser é professor.
Parabéns Honório pelo seu blog, está excelente, muito engraçado mesmo.
Xero,
é sério que tu conta os numeros de aula?! Oo
Postar um comentário